Pompa T'Ácqua

Para aparecer.Como todo professor,sou exibicionista.Agora,em escala planetária.

Pela estabilidade da língua
dmtcllr
Se numa época se peca pela rigidez doentia, noutra se passa a defender o laxismo puro e simples.  Até da pena de um Boaventura Souza Santos se lê, agora, que "a língua portuguesa deve ser deixada em paz, entregue à turbulência da diversidade que torna possível que nos entendamos todos em português", o que ele diz ao defender a inaplicabilidade do novo acordo ortográfico ratificado há pouco tempo pelos países de língua portuguesa. (Libertem a língua, Agência Carta Maior, 16/04/2008).  Embora eu também não concorde com as alterações impostas pelo citado acordo, esta é outra questão. O que quero comentar é a impropriedade do argumento usado.

A afirmativa encerra uma contradição: como vamos nos entender todos em Português ficando a língua à mercê de uma "turbulenta diversidade"? Afinal, complementarmente, a tese expressa é de que a "turbulenta diversidade" torna possível que nos entendamos todos.  Ora, o que nos possibilita o entendimento é, trivialmente, a estrutura, o léxico e a cultura comuns das variantes da língua, não as diferenças.  As diferenças, se continuarem aumentando, vão-nos impedir a compreensão mútua, isso sim.  Ninguém vai poder se aculturar em todas as variantes se continuarem a se destacar indefinidamente.

Toda essa conversa de liberdade para a língua é algo anacrônico até a raiz.  O Latim originou as línguas latinas devido à imposição colonial de Roma sobre povos "incultos e belos", como diria Bilac.  Mas e por que cargas d´água o português não virou alguma mescla com língua indígena ou africana no Brasil e na África?  Porque o controle foi muito maior de parte do poder colonial, visando manter uma unidade geopolítica e cultural, logo, linguística.  Não fosse isso e nem haveria mais qualquer língua portuguesa a ser defendida hoje, havendo até quem antecipe e, aparentemente, até preconize o fim do português na Europa, em nome de uma presumida liberdade evolucionária para o idioma. Deixado livre ao longo dos séculos, o Português teria sumido, da mesma forma que sumiu o latim como língua de uso corrente, e teria dado origem a uma série de "pidgins" falados por alguns milhares de pessoas somente, um em cada canto da África e mesmo do Brasil, onde, talvez, se falaria o "Nheen-gatú", a Língua Geral, mescla de tupi-guarani e português, que era falada pelos colonos e pelos índios numa certa quadra. E o Brasil, talvez, até nem existisse. A unidade política do Brasil tem um pé muito bem plantado na unidade linguística.  Roma, a seu turno, é que não percebeu isto (como tampouco percebeu outros aspectos de corrosão do seu império, entre eles a ignorância generalizada do povo e até das classes dirigentes incompetentes cooptadas nas colônias, sem falar da corrupção política, no que não vamos por melhores caminhos).

É da estrutura dos povos a sua língua e, independente do fato dessa relação ter sido obtida abaixo de muito autoritarismo, hoje está posta, e não cabe mais ela ser deixada ao léu de uma "naturalidade evolutiva". Principalmente porque é preciso fazer com que TODOS tenham um nível de educação e cultura elevado.  Isto só será possível com uma língua forte e estável.  Senão, como vai-se desenvolver uma educação, uma literatura e até uma imprensa?

Antigamente não havia como fortalecer o uso de uma variante, a não ser por decretos reais e quejandos expedientes.  Cada um, praticamente, interiorizava uma gramática diferente, constituindo um idioleto (que ainda se verifica para qualquer pessoa, só que com menor variação e, mesmo assim, de modo instável, e, mais importante, que não se impõe sobre o desempenho linguístico do indivíduo quando ele é exigido a se expressar de modo formal). Presentemente, os meios de comunicação de massa impõem não só uma variante, mas a própria necessidade de todos a adotarem, quanto mais não seja pelo pragmatismo de se viabilizar a comunicação.

Outra dimensão a ser considerada é que, hoje, é um DIREITO de cada pessoa ser educada sobre a variante dominante justamente para poder se integrar nos diversos mecanismos sociais. Se o cidadão não domina a variante dominante, ele terá muitíssimos problemas de enquadramento social, profissional, legal e cultural, sem falar do preconceito que sofre de parte dos "bem-falantes", por mais indefensável que este seja. Mas tal direito precisa ser garantido em primeiro lugar pela própria permanência dessa variante.  Uma coisa é uma sociedade primitiva, de cultura simples, com poucos membros letrados, quase sem conteúdo científico, técnico, político, literário etc. a registrar e divulgar.  Neste cenário, cem anos podem criar e enterrar idiomas, cuja perda pode ser lamentada, mas afeta diretamente pouca gente e causa danos de pouca monta. Outra coisa é uma sociedade múltipla em conteúdo, em meios de comunicação - inclusive cada vez mais integrados -, com centenas de milhões de leitores, com um crescente número de escritores - vide a proliferação das páginas pessoais na Internet("blogs") -, aumentando a complexidade de todas as interrelações possíveis desses conteúdos e também a urgência por um maior nível educacional geral.  Neste cenário, há que se trabalhar pela estabilidade linguística.  Ou, no limite,  rumaremos para o caos linguístico onde ninguém conseguirá se situar.

Embora não seja possível provar a veracidade da seguinte percepção, creio que não se chegará ao citado caos.  Muito antes disso, os poderes que hoje negligenciam o problema acabarão por atuar, talvez de forma autoritária, mais uma vez, para impor a ordem, pois o processo terá que ser revertido, ou se estará indo contra o ideal de compreensibilidade.  A questão final é, portanto, colocada sob um aspecto argumentativo, a seguinte: por que sustentar filosoficamente um processo de liberação linguística, se isto vai contra a premissa de um idealizado entendimento geral, e que só vai complicar ainda mais o problema já existente?

Tecnologia no ensino: nem pensar!
dmtcllr
Algum tempo atrás, alguém argumentou que o ensino está cada vez mais inibidor das capacidades humanas.  Ilustrou com uma anedota,  já sobejamente conhecida, sobre um bando de técnicos de nível superior recrutados para resolver o problema de como fazer passar sob um viaduto um caminhão que tinha a carroceria um pouco alta demais.  Vai daqui, vai dali, ninguém conseguia.  Até que passa um garotinho (não se sabe de que idade, claro) que, sabiamente, sugere que esvaziem os pneus do veículo.  "Ahhh! Como não pensamos nisso antes!"  E a moral é a seguinte: quem faz faculdade fica oligofrênico. Por que será?

Depois de pensar um pouco, chega-se facilmente à resposta.  São as invencionices da sofisticação no ensino que tiram a criatividade das pessoas.  Por isso, descubro que sou contra o uso de QUALQUER tecnologia no ensino.


No caso da Matemática, por exemplo, mais especificamente na Aritmética. Historicamente, pode-se observar o quanto foi utilizado o ábaco como instrumento de manipulação aritmética em várias atividades humanas. No entanto, que me conste, há muito tempo foi abandonado seu uso na escola primária, e isto muito antes de surgir a calculadora mecânica ou eletrônica. Isto demonstra o acerto dos antigos professores ao não usarem ou deixarem de usar tal dispositivo. Também o uso de papel e caneta, por exemplo, prejudica muito o processo de instrumentalização dos grãos de feijão como unidades de contagem, ou da parede ou da areia do quintal da escola como mídia. Tanto um (papel) como outro (caneta) embutem tecnologias complexas que estão além da capacidade de apreensão de crianças que não têm outra experiência que aquela propiciada pela interação com um vídeogueime reconfigurável! O papel é veículo informacional sofisticado demais para a mente infantil, ainda mais se for apresentado de imediato, na primeira série fundamental, já coberto de símbolos incompreensíveis para os pequenos. Trata-se de objeto semiótico de per se, invocando de forma antinatural todo um conjunto de sentidos que hão de contribuir para uma superposição semântica hipertextual de múltiplos níveis (conforme Pierre Lévy), se usado em conjunto com a televisão, digamos, inviabilizando o estabelecimento de associações cognitivas significativas e claras. Da mesma forma, a caneta esferográfica, com seus dois canudos plásticos, um deles com risco armazenado (na forma de tinta - vejam que incrível transmutação!), sua ponta e sua esfera minúscula (oculta, esta, normalmente, da experiência direta do educando, diminuindo-se, assim, o potencial de construção de conhecimento por operações concretas, o que é maravilhosamente oportunizado pelo bastão de carvão).

Até mesmo a simples observação do comportamento das pessoas adultas e portadores de títulos de nível superior, como engenheiros, advogados e professores, permite que se perceba o quanto o uso da tecnologia no ensino lhes subtraiu competências admiráveis, que QUALQUER criança demonstra e que NENHUM desses indivíduos de nível "superior" tem, como para resolver problemas de forma criativa, inovadora, surpreendente.

O uso de calculadora é muito mais deletério, realmente, em todos os níveis de aprendizado. A possibilidade de se obter rapidamente o resultado de uma multiplicação com mais de três dígitos de precisão decimal só contribui para desviar a atenção dos alunos da temática da multiplicação para o fenômeno físico representado por uma "complicada" equação, por exemplo. Ao fazer uma conta "à mão", o estudante exercitará elementos verdadeiramente fundamentais, em vez de se envolver com a percepção precoce da relação entre objetos formais (variáveis) representada por uma equação. Mesmo em nível superior, a abstração que uma calculadora introduz dificulta o trabalho do professor e reforça a incapacidade cognitiva dos alunos, a esta altura, provavelmente já herdada dos níveis anteriores de ensino, especialmente dos chamados "cursinhos" pré-vestibulares.

Isto é, facilmente, extrapolado para o uso do computador. Afinal, o computador não é mais que uma ferramenta, ainda que sofisticada e poderosa, aplicada, justamente, na potencialização do cérebro das pessoas. Mas é uma ferramenta, não mais que isso. Como a calculadora. E o lápis. Por isso, objeto das mesmas preocupações, cuidados e estudos, visando sua aplicação adequada (ou não) em processos tão sensíveis como o ensino. Indpendente de tudo isso, uma coisa é certa: um dos maiores problemas do uso do computador no ensino é comunicar à percepção do fenômeno propriamente humano uma série de metáforas regressivas como "cérebro" da máquina ou, pior, "software" do cérebro. Nenhum de tais paralelos é sequer correto, além de ser perigoso para uma futura definição do que seja "pessoa".

Robôs serão pessoas, e pessoas poderão ter que se submeter às mesmas definições que robôs? Para alguns, a resposta é: sim. Alguns países europeus já começam a introduzir em seus sistemas legais itens que prevêm coisas como a "responsabilidade civil ou penal robótica", por exemplo. Isto resulta de uma cultura que há décadas vem se contaminando, a partir da escola básica, com a idéia de naturalizar o computador (e sua contrapartida antropomórfica, ou, pelo menos, naturomórfica, o robô). A motivação está em que os progressos da tecnologia vão, pouco a pouco, superando as barreiras do que se denomina "simulação da inteligência humana", e estabelecendo a inteligência de máquina, evidenciando que o insucesso está, sim, em se buscar aquela simulação, em vez de se liberar a construção de algo inteiramente novo. Isto antecipa o momento em que, segundo Fukuyama, as máquinas substituirão, integral e definitivamente, os seres humanos, o que será a única maneira de a vida sobreviver na Terra e colonizar o Universo. Sim, a vida, foi isso mesmo que escrevi e o que ele quer dizer.

Indo longe
dmtcllr
Repercussões deste blog

Ora, vejam Vocês. O artigo "O valor da Universidade em função do valor da formação superior", publicado aqui em 02 de janeiro saiu também em La Insignia, de 14/07/2007, revista ibérica de cultura on line. http://www.lainsignia.org/2007/julio/cul_025.htm. Até aí, legal, tudo bem. A submissão à revista foi de minha iniciativa. Mas o que é notável é ele ter virado tema da prova de Língua Portuguesa do Processo Seletivo de Transferência Voluntária - PSTV - da UFCG - Universidade Federal de Campina Grande, de julho passado. Para quem não acreditar (eu mesmo acho isto uma espécie de fenômeno Matrix) : www.comprov.ufcg.edu.br/pstv2007prova.pdf. Eu tentei fazer a prova, e na parte correspondente, certamente não acertaria todas as questões 8-| , o que me deixa muito preocupado. Fiquei sem entender, em relação a alguns tópicos, se, afinal, está correta minha redação ou não... Como não localizei o gabarito da prova, até agora desconheço se seria aprovado para ingresso alternativo em, digamos, Letras...

Agora virou várzea definitiva
dmtcllr

Na lista de discussões do curso de Engenharia de Computação, depois de algumas manifestações sobre linguagens de programação esdrúxulas, algumas meros exercícios de criatividade técnica, seguidas de derivações incluindo bobagens como o "miguxês" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Migux%C3%AAs), um estudante postou apenas e tão somente: "agora virou varzea definitiva".  Pareceu-me, como sempre, mais uma tentativa de interromper o exercício de associações livres que vinha sendo feito, certamente por vê-lo como uma inutilidade.  Bem, cheguei a escrever uma resposta, mas ao final, penso que caberia mais usar este espaço para compartilhar com Vocês e não a própria lista.  Assim, só lerão isto  aqueles que (presunção minha) acharão alguma graça nisto.  Sei que ninguém comenta coisa alguma, porém sei que alguns lêem.

Re:  [DAComp-L] LOLCODE 

| agora virou varzea definitiva

Conceitue "agora";
conceitue "virou";
conceitue "várzea";
conceitue "definitiva".

Nada é definitivo.  A várzea é criativa por excelência. Quem vira é lobisomem. Agora é o imponderável; a rigor, o presente não existe.

Conceitue "nada";
conceitue "criativo";
conceitue "excelência";
conceitue "lobisomem";
conceitue "imponderável";
conceitue "a rigor";
conceitue "presente";
conceitue "existir";
conceitue "não".

O nada, a rigor, existe, pois se coloca em oposição ao que existe, que só existe em relação ao nada.  Por isso, o vácuo absoluto, como existe, não é o nada.

O elemento criativo na natureza do ser lhe comunica a própria existência desde sempre.  Nenhuma coisa pode ser sem ter sido criada.  Daí, a capacidade de cada ser (mesmo uma pedra inerte) de prosseguir em vibração potencialmente criativa.  A pedra ao se desintegrar cria sistemas de fragmentos interrelacionados, mesmo apenas de um ponto de vista histórico, filogenético. Quanto mais complexo o ser, com mais elementos (materiais ou simbólicos), mais potencial recombinante, logo, mais criativo.

A excelência é qualidade do que transcende a trivialidade do cumprimento de papéis. Ser por excelência é ter foros de preferência ontológica: "2001, uma odisséia no espaço" é cinema por excelência, enquanto "O massacre da motossera", não. Se quero exemplificar cinema, digo "2001", e não "O massacre da motoserra".

O limite é a perfeição, a excelência é o trânsito para a perfeição, adquirindo, assim, um aspecto de processo, ou seja, a excelência não é um estado, mas um processo, um vir a ser.  A perfeição, sim, é definitiva, estática, final.  Poderia-se dizer... morta.

A várzea, por ser um ecossistema complexo, é criativa por excelência.  Exemplifico ambiente criativo com o exemplo da várzea.  Aliás, como se prima pelos ambientes criativos, as várzeas são protegidas...

O Lobisomem é americano em Londres.

O imponderável é o que não pode ser pesado, ou ter sua massa aquilatada em oposição a algum padrão. Conceitos tão abstratos, como o do momento, ou instante presente são imponderáveis (não só por não terem massa, logo, não terem peso, mas, principalmente, por não poderem ser contrapostos claramente a um padrão de avaliação de grandeza ou relevância).

O rigor se exige para a precisão conceitual.  Sem rigor, não se firmam valores nem sentidos. Daí a demanda permanente de definições, ainda que as definições derivem umas de outras ("de" outras, não "das" outras, atente-se, o que pecaria por circularidade).

O presente corresponde ao instante infinitesimal entre o passado, que já aconteceu (ou seja, não existe [mais]), e o futuro, que não aconteceu (ou seja, não existe [ainda]).  Usa-se o termo, também, para designar um intervalo histórico maior, confome o complexo de acontecimentos que se deseja abranger num discurso: o dia presente, o ano presente, os tempos presentes (últimos 10 anos, por exemplo, até o instante propriamente presente).

"Existir" é "habitar estaticamente na verdade do Ser", segundo Heidegger. A partir dos filósofos fenomenologistas, como Husserl, passou-se a considerar duas "manifestações" na realidade das coisas:  o fenômeno e o ser.  O fenõmeno seria a aparência, a síntese perceptiva, a interação de um ser com outro.  São aventadas duas "classes" de seres:  os seres em-si e os seres para-si.  Os seres em-si, como as pedras, as estrelas e todos os elementos naturais (fenômenos, como a aparência da pedra para quem a observa, o vento, um buraco negro conforme é percebido e não "sentido") são apenas seres-em-si, "opacos para si mesmos", nem ativos nem passivos, sem qualquer relação fora de si, não derivados de nada, nem de outro ser: o ser-em-si simplesmente é. Já o ser-para-si, que seria o ser autoperceptivo, tem na sua consciência uma presença para si mesma.  Assim, entre o ser e a sua percepção, há, claramente, uma "descontinuidade", uma "fissura", dentro do próprio  ser. Essa fissura, ou descolamento, é a marca do nada no interior da consciência.

Levada ao limite, a caracterização dada acima de "presente" alicerçaria um paradoxo: se o presente é infinitamente instantâneo, não pode conter coisa alguma; logo, nada há no presente; o que existe é fruto de tudo que já aconteceu; e o que ainda não aconteceu é nada.  O presente rigorosamente presente fica entre o tudo e o nada. 

A solução para isso é a instauração cósmica do "tempo": enquanto o ser-em-si fica restrito aos seus próprios limites materiais, suas "fronteiras", o ser-para-si teria um movimenteo à transcendência, um poder de transcendência, dado na manifestação das formas do tempo. Em outros termos, o ser-para-si seria um ser para o futuro, seria espontaneidade criadora.  Segundo Sartre, o tempo é também expressão de mistura entre o em-si e o para-si.  A existência se caracteriza, assim, como um permanente ir e vir do substrato real dado a priori e a realidade "construída" (desvelada) pela compreensão.  A existência perpetuamente questiona a realidade que a determina, sem deixar de ser, de existir nela.

Claro que outra questão é que o "ser" abstrato, da forma indeterminada que o substantivo exprime, não existe absolutamente.  O que existe são os seres em particular, cada um na sua individualidade.

Para quem quiser aprofundar (minimamente):

(http://www.consciencia.org/cursofilosofiajolivet24.shtml)
(
http://www.culturabrasil.org/sartre.htm) (http://www.filosofiavirtual.pro.br/serheidegger.htm)

Também recomendo a leitura da novela "A náusea", de Sartre, daunlôdabl de http://www.ateus.net/ebooks/downloads/sartre_a_nausea.zip (em edição de péssima formatação, mas, enfim, de graça) seguida de http://www.filologia.org.br/soletras/12/05.htm

Não.  Para ser positivamente não, ao não não se aplica o não, ou seja, o não não deve negar-se, ou seria sim.  Além disso, o não assume múltiplas formas: jamais, nunca, nenhum, nada, de jeito nenhum.  Combinar essas construções acaba sempre produzindo negações de negações, ou seja, afirmativas.  Por isso, construções com não tendem  a ser contraditórias. É... O  "não" não é mais simples do que os outros conceitos.  O não é muito mais complexo.  Melhor nem tentar analisá-lo.

Conceitue "colocar-se";
conceitue "oposição";
conceitue "relação";
conceitue "vácuo";
conceitue "absoluto";
conceitue "elemento";
conceitue "criativo";
conceitue "natureza";
conceitue "comunicar";
conceitue "próprio";
...
ad infinitum

Conceitue "ad infinitum"...


A prática contra o mito do professor seguro
dmtcllr

Um professor, nosso colega, certa vez, houve por bem flexibilizar a data aprazada para entrega de trabalhos, permitindo que alguns grupos o fizessem além do prazo inicial.  Alguns alunos protestaram, afirmando que se soubessem do adiamento, teriam alcançado melhores soluções do que as que apresentaram, premidos pelo tempo.

 

Os professores mais experientes hão de convir que esta é uma situação relativamente comum.  Mas o que me motivou a considerá-la para este comentário foi o aprofundamento da reação dos alunos descontentes, que evoluiu para a acusação de que o professor teria cometido duas faltas, a saber:  primeira, tornar inseguros os critérios de avaliação, por ter “mudado as regras do jogo”; segunda, prejudicar a própria percepção que os estudantes acabariam tendo da instituição e do conteúdo, digamos, ético ou metodológico embutido no exemplo que deveria dar de qualidade do seu fazer docente.   E mais: sustentaram que o professor teria incorrido em tais desacertos por não ter sido rígido na discussão havida com os retardatários.

 

Em conseqüência, o professor ingressou, ele, também, num processo de reavaliação do seu procedimento, e confessava-se em dúvida sobre se, tendo dado mais prazo, não teria prejudicado a uns e outros.  Mas preocupava-se, igualmente, com uma deficiência identificada nos alunos: a incapacidade deles de lidar com uma alteração de conjuntura.

                                                                                                                 

2.  Obviamente, como exercer a autoridade absoluta sem o conhecimento absoluto?  Antes de mais nada, ESQUEÇAM o Mito do Professor Seguro.  Esta é uma figura idealizada, construída para alimentar o autoritarismo de que se impregna a educação em todos os níveis.  Na escola básica, isto é algo há muito discutido e enfrentado, de diversas maneiras. Derradeiramente começamos a desmistificar o nível superior, em que a palavra do professor ainda tende a valer como lei.

 

3.  Cada vez mais a posição do professor será mais vulnerável a todo tipo de ataque contra essa postura.  Especialmente se ele resolver se expor como um ser humano comum, sujeito a todo tipo de incerteza e desequilíbrio, até à anomalia e ao que se poderia chamar "dissipação energética" (ou ineficiência pura e simples). Tudo isto deve acontecer em situações reais. A competência docente não é mais saber e dizer tudo, mas, pelo contrário, adequadamente gerir a insegurança, dada a incompleteza da informação, a transitoriedade dos fatos, a escassez de recursos materiais (apesar da exigência, paradoxal, de cada vez mais recursos) e, principalmente, a fragilidade do material que ele tem em mãos: a vida dos estudantes.  Seu problema é educar, o que inclui ensinar.  A insegurança de como fazer é inerente.  Não há formulas.  Mas certamente uma tarefa é criar o ambiente propício para o crescimento dos alunos, não só cognitivo mas também pessoal.  Conforme as escolhas que cada professor fizer (e seus alunos, na interação com ele) se estará também inserindo no sistema um item de DIVERSIDADE, que também é, queiramos ou não, um aspecto da normalidade do mundo real.

 

4.  No caso de quem vá trabalhar com desenvolvimento de soluções computacionais, é necessariamente axiomático que aconteça o enfrentamento com problemas os mais diversos, em situações de desequilíbrio cognitivo (por insuficiência de informações e de conhecimento), sem falar da falta de recursos computacionais imediatos.  Alias, diria que, em engenharia, esta é a NORMALIDADE.  Anormal é se encontrar tudo certinho e definido. Metade mais um por cento da solução de qualquer problema é bem formulá-lo.  E isto demanda um aprendizado que nem sempre se consegue formalizar.

 

5. Talvez justamente esta oportunização do imponderável é que seja o grande diferencial do ensino superior contra eventuais qualidades do ensino dito técnico.  Este prima por estabelecer ambientes de aprendizado estritamente controlados, onde nada deve (nem pode) dar errado.  Age por imersão do estudante em estruturas cognitivas determinadas para ter certos efeitos e não outros.  Tem como meta "programar" as mentes dos aprendizes, de modo que, sempre que se encontrarem em situação similar de exigência profissional (input), reajam conforme o modelo prescrito pela experiência de aprendizado, que lhes imprimiu um comportamento previsível (output).  O ensino superior é digno deste nome ao desvelar as possibilidades, mais do que as certezas, ao estabelecer os potenciais a se realizarem quando livre e criativamente operados pelo agente assim formado.  Por exemplo: procura-se discutir as relações entre variáveis, o que deve levar intuitiva e naturalmente ao método de solução e não se apresenta simplesmente um processo de resolução propriamente da equação  [pelo menos é o que deveria acontecer] ou se trata dos componentes de estruturas de dados de um ponto de vista abstrato e reinterpretável conforme o contexto venha a exigir, e não soluções especificas para um problema especifico (uma aplicação), a não ser como demonstração exatamente de COMO ADAPTAR as abstrações.  Ou seja: nunca vai ter mais valor um caso particular;  sempre vai interessar mais a generalização.

 

6.  Ora, para se atingir sempre melhor performance de ensino visando incrementar a qualidade segundo as idéias descritas acima, um professor honesto só pode agir expondo-se ao erro, ao desequilíbrio, à dissipação, à CRIATIVIDADE.  E tem que propiciar tal oportunidade aos alunos, e levá-los a ter consciência disso: de que o aprendizado deve ser resultado da ação consciente de um GRUPO de trabalho, em que o professor cumpre um papel diferente, sim, mas não maior nem menor que qualquer aluno.  Um professor que leva soluções redondinhas e bem arranjadas para só dar certo, ao exemplificar a aplicação de suas teorias, está prestando um DESservico.  Claro que isto não o exime de conhecer profundamente o assunto, mas não para pontificar e, sim, para sair das "frias" em que se verá por ser professor.

 

7.  Agora a questão dos trabalhos.  Vou repetir e comentar trechos do que disse o Prof. Marcelo:

 

É  melhor que os alunos tenham mais liberdade e tempo de assimilar o conteúdo da disciplina; entretanto, se isto gera insegurança dos alunos, então temos um problema.

 

-- Na minha opinião, um ótimo problema, a ser enfrentado não com uma solução regressiva, mas, sim, que explore o potencial criativo da incerteza.  Para isto é que é necessária a segurança do professor, não para ter esquemas rígidos em que enquadrar os problemas, mas para enfrentá-los junto com os alunos. Deverá exercer não só a preleção, mas também a orientação nos casos particulares. Observem como ele faz, e estarão aprendendo, também.

 

(...)pois, independente de qualquer coisa, como professores de uma universidade não podemos diplomar engenheiros que sejam inseguros ...

 

-- Inseguro, no mau sentido de não ter como enfrentar os problemas, não. Mas a insegurança como normalidade, justamente para não ser temerário, precisa ser incorporada à experiência.

 

ou imaturos,

 

-- Esta é a grande viagem que um curso deve propiciar: da imaturidade à maturidade, que inclui, entre outras coisas, saber lidar com a insegurança.

 

pois desta forma, estaríamos descumprindo nosso compromisso com a sociedade para a qual trabalhamos. Nem que isto implique em mudar algumas regras do jogo.

 

--  Uma parte da competência insegura é justamente adaptar-se com eficácia às regras cambiantes.  A vida se organiza em sistemas complexos, mutáveis e complexamente inter-relacionados.  As regras mudam não só por serem propriamente modificadas mas, também, porque permanentemente se está descobrindo que nada é como parece ser.

 

Portanto, se a flexibilização da entrega dos trabalhos (conseqüentemente a divulgação das notas) é um aspecto gerador de incertezas, pois então que tratemos este caso isolado como parte do projeto pedagógico do curso com o objetivo de sanar uma deficiência dos alunos que está sendo observada.

 

--  Como conclusão, se Vocês entenderam os princípios que busquei comunicar e sem querer tirar a autonomia do professor na sua relação com a turma em questão (como já frisei no item 1) devemos concordar em que

 

a)  a flexibilização referida é um avanço de parte do professor no gerir adequadamente a questão da avaliação, inclusive aumentando a complexidade do processo (seria mais fácil para ele determinar uma data, "até a zero hora", por exemplo);

 

b) os alunos que se beneficiam da flexibilização devem defendê-la (pelos benefícios que tenham, é obvio);

 

c) os demais devem vê-la como oportunidade de aprender a gerir suas agendas, além de resolver os problemas propriamente técnicos.

 

Por fim, acho que adotar procedimentos padronizados para todos os professores, ou, mais ao gosto de um ou outro aluno, recomendar que este ou aquele professor seja visto como modelo, é subtrair do ambiente a diversidade, que, acredito, deve ser muito mais cultivada, e não reprimida.


LEIS UNIVERSAIS APLICADAS À INFORMÁTICA (Comentadas )
dmtcllr

 

Volta e meia recebe-se pela Grande Rede certas peças de humorismo mal acabado, muitas vezes respingado de preconceitos diversos, ou com flagrantes impropriedades, que vão além da própria piada que o sujeita julga estar fazendo, denunciando a pouca competência ou mesmo a charlatanice literária do autor.  É o caso das tais "leis universais" a seguir.  Resolvi respondê-las, com minha proverbial presunção pernóstica  (e sem levar em conta os erros de português!).

 

Em primeiro lugar, há que se ressaltar que estas "leis" são qualificadas como UNIVERSAIS, incidentalmente APLICADAS À INFORMÁTICA.  Isto lhes conferiria maior importância filosófica do que poderia(m) supor seu(s) ingênuo(s) autor(es)?

 

  • SE TODAS AS DEMAIS TENTATIVAS FALHARAM, É HORA DE TENTAR O MANUAL DE INSTRUÇÕES
Absolutamente incorreto:  o manual de instruções deve ser lido ANTES e não depois de não se saber mais o que fazer.

 

  • MANUAIS NÃO SÃO ESCRITOS PARA AJUDAR O USUÁRIO, MAS PARA PROTEGER O FABRICANTE
Exatamente, pois os fabricantes "sabem" que os usuários são muito "perigosos".

 

  • SE TUDO FUNCIONOU BEM ATÉ AGORA, ALGUMA COISA ESTÁ ERRADA
Uma contradição em termos:  "se funciona bem é porque funciona mal". Só pode ter origem numa síndrome paranóica, gerada pela absorção da "teoria" da  "conspiração permanente", pela desconfiança contra tudo que é "tecnológico" (como se a roda de carroça não fosse um artefato tecnológico).  A partir disso tem-se indícios de que o autor está perdendo contato com a realidade, seja por dizer tal asneira, seja por acreditar que outras pessoas (não tão doentes quanto ele) possam levá-la a sério (vale como brincadeira, em laboratório, de professor terrorista, ao comentar o trabalho de um de seus alunos). Obs.: a "teoria" da "conspiração permanente"  inclui, entre outros princípios, que todas as outras pessoas (exceto eu) são espiões ou da CIA ou da KGB ou da Trilateral ou do Consenso de Washington e que o homem é a praga do planeta e que eu (o crente) não sei por que ainda não me matei.

 

  • ERRAR É HUMANO MAS ERROS MONUMENTAIS REQUEREM UM COMPUTADO
A Santa Inquisição não usava computadores, nem Cabral (quando se "desviou" em sua rota para as Índias), nem os construtores da Torre de Pisa (que alias é um monumento, daí a monumentalidade da sua inclinação).  A monumentalidade do erro depende do contexto:  se se usar computador será um erro COMPUTACIONAL monumental, só isso.  É preciso acabar com essa idéia de que o computador é mais do que uma ferramenta.  Sofisticada, sim, poderosa, mas não mais que uma ferramenta, isto é o que um computador é, tanto quanto um lápis.  O erro é do usuário, não do computador.  A ferramenta (qualquer uma, seja uma pedra, uma faca, uma bomba atômica) apenas potencializa o erro.  Ou o acerto; logo, é preciso dizer também que  ACERTAR É HUMANO MAS ACERTOS MONUMENTAIS REQUEREM UM COMPUTADOR; vide viagem à Lua, Projeto Genoma, por aí.

 

  • QUANDO UM PROGRAMA É REALMENTE BOM, A MEMÓRIA SERÁ INSUFICIENTE
Errado. A memória é que deve ser suficiente, conforme a tarefa a ser enfrentada. Além disso, um programa REALMENTE BOM deve caber sempre na memória especificada, em função da importância da tarefa.  Ou então pode até ser eficaz, mas não é um bom programa. 

 

  • A QUANTIDADE DE INFORMAÇÕES DISPONÍVEIS É INVERSAMENTE PROPORCIONAL À IMPORTÂNCIA DA DECISÃO A SER TOMADA

Fora do contexto (o que tem a ver com a Informática, especificamente?). Seja como for, é correto na aparência (se se refere à publicidade, é correto, em geral), mas enganosamente falso, no limite.  Ou seja: a mais importante decisão se tomaria com base numa quantidade nula de informação (talvez seja esse o caso de fernando henrique, paulo renato, lula, rigotto, yeda et catoerva). Na verdade, o que se verifica é que a taxa de crescimento da quantidade de informação pode até ser MAIOR que a taxa de crescimento da importância da decisão, ou seja: pode-se ter informação demais ao decidir. Depende do contexto e do sistema de informações usado.

 

  • TUDO O QUE ESTÁ SALVO NA MEMÓRIA É INÚTIL, ATÉ O MOMENTO EM QUE É APAGADO

Um exagero evidente: fosse assim e NADA poderia ser feito, pois tudo é construído por partes, nada se constitui por um único ato miraculoso. O próprio texto das "Leis Universais" em questão, constitui-se, assim, em prova concreta da falsidade da afirmativa: como se poderia escrever um texto [uma lista de caracteres] útil que, a cada caracter digitado, não necessitasse dos caracteres já digitado? [Uma lista de caracteres é feita de um caracter seguido de uma lista de caracteres.]  Por exemplo: o texto foi composto numa memória (CERTAMENTE! Não me vão dizer que não!) paulatinamente, tendo sido útil ao(s) autor(es) que ele permanecesse "a salvo" na memória, até ser concluído.  Factualmente, vemos que o texto conseguiu se salvar, não foi apagado antes de ser útil para sua própria conclusão (deve ter sido até revisado, algumas vezes, se não para aperfeiçoamento, no mínimo para gozo intelectual narcísico de seu(s) autor(es)).  Este enunciado nem como trocadilho serve, dada a flagrante impropriedade no uso dos termos:  não se "salva" nada na memória [primária].  (Se não é a memória primária que está em questão, pior ainda: na memória secundária se salvam todos os sistemas que permitem o uso do computador, de modo a sobreviverem quando desligado, e que não podem ser tachados de inúteis...)  Ou será que essas tais de "Leis Universais" é que são inúteis mesmo?  Nesse caso, por que seus sapientes compiladores perdem tempo com elas?

 

  • EM INFORMÁTICA TUDO FICA MAIS FÁCIL SE VOCÊ PERGUNTAR AO INVÉS DE RESPONDER

Correto.  Alias, para tudo na vida, na ciência e no comércio. E isto vale não só porque responder é mais difícil, mas porque sem perguntas não há respostas, e as melhores respostas vem das melhores perguntas.  Quem não pergunta tem consciência primária e baixo potencial evolutivo.

 

  • SE A TEORIA NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, USE UM MARTELO

Errado, pois das duas uma:  ou a teoria é incorreta, e adicionar martelos não vai melhorá-la, ou você é que é oligofrênico e não a entende e nem consegue transpô-la para a prática (ou pior: não foi à aula no dia em que o professor a explicou).

 

  • QUALQUER COISA QUE VALE A PENA, CUSTA CARO

Errado.  O custo compõe a pena, ou seja: se vale A PENA, vale o custo e algo mais. Logo, nunca é caro.  Se é caro, NÃO VALE A PENA. Não é nisso que se baseia a lei da oferta e da procura? 

 

  • NOVOS SISTEMAS RESOLVEM VELHOS PROBLEMAS E GERAM PROBLEMAS NOVOS

Absolutamente correto, e vem sendo assim desde o domínio do fogo.  Como vai seu novo automóvel, seu DVD, o novo sistema de matrículas?

 

  • TUDO QUE PODE DAR DEFEITO VAI DAR, MAS SÓ DEPOIS QUE ACABAR A GARANTIA

Errado. Aliás, seria fantástico se fosse assim. A garantia é dada dentro de um prazo que engloba uma certa (em geral alta) probabilidade do equipamento funcionar sem problemas.  É por isso que estraga DEPOIS do prazo de garantia. Mas, não! Sempre haverá uma certa percentagem de equipamentos que estragará antes disso.


  • TODO SISTEMA FUNCIONA BEM DESDE QUE A GENTE NÃO PRECISE DELE

Que historia é esta? Se não precisa, não usa; logo, não descobrirá defeitos.  Só vai funcionar mal se for usado, ou seja alguém precisar dele.  Ou será que se usa coisas de que não se precisa? Então está usando de bobeira ou, no mínimo, por conta e risco.  Aliás, pior se a gente paga por algo de que não precisa.

 

  • SE VOCÊ ESTÁ FAZENDO A DEMONSTRAÇÃO DE UM SISTEMA, EVITE DIZER "MERDA!"

Diga "MOTHER FUCKER DE LA GRAN PUTA QUE ME LOS PARIÓ!!!!"

 

  • QUANDO OS FATOS ESTÃO EM DESACORDO COM A TEORIA, LIVRE-SE DOS FATOS

Péssimo conselho dado por quem pretende estar desmascarando os males da Informática.  Vem a demonstrar a incoerência metodológica e principial do(s)autor(es): de um lado, buscam apresentar grandes defeitos da cultura computacional ou informat/ica/izada; mas, de outro, como neste caso, preconizam a adoção de comportamentos reprováveis em todos os sentidos. A menos que a frase pretenda ser uma citação irônica de algum principio reinante no meio. Mesmo assim, é igualmente mentirosa.  Em relação à ciência da computação, a mistificação encontra maiores dificuldades do que na química, física ou biologia, sem falar nas ciências humanas em geral.

 

  • NO LONGO PRAZO, O CAMPO DA INFORMÁTICA NÃO TERÁ VENCEDORES, APENAS SOBREVIVENTES

Ou apenas "ganhadores"?  Por outro lado, isto é verdadeiro para toda atividade humana (seremos todos ganhadores ou sobreviventes).  Alias, em uns três bilhões de anos nem a espécie humana sobreviverá  (até lá o Sol já terá entrado em fase de gigante vermelha).

 

  • QUALQUER SISTEMA POSTO EM PRÁTICA COM 99% DE POSSIBILIDADE DE DAR CERTO, TEM 99% DE POSSIBILIDADE DE DAR ERRADO

Bem, aqui a coisa é mais complicada:

  a) dado que "o que dá certo" não tem intersecção com "o que dá errado", esta afirmativa é uma impossibilidade matemática, uma besteira estatística, a menos que o conjunto universo (na realidade paralela em que vive o enunciador desta frase) tenha 200% de seu próprio tamanho (99% certo sobre certo+errado + 99% errado sobre errado+certo + 1% errado sobre certo+errado + 1% certo sobre errado+certo, dado que o 1% errado sobre certo+errado tampouco pode ter intersecção com o  1% certo sobre errado+certo, não estou certo?).

  b) outra possibilidade de interpretação é que a expressão SISTEMA-POSTO-EM-PRÁTICA-COM-99%-DE-POSSIBILIDADE-DE-DAR-CERTO esteja completamente substantivada; se a expressão apenas nomeia alguma coisa, independente do seu significado comum, está liberada de coerência com seus atributos (por exemplo: uma pessoa chamada Branca de Oliveira, que é negra e não é branca de oliveira), ou seja: a afirmativa em questão torna-se absoluta, não é mais feita de um antecedente e um conseqüente, dependente, sua verdade, então, de mera comprovação estatística, a ser providenciada sobre o conjunto de tais sistemas, i.e., os tais que são do tipo SISTEMA-POSTO-EM-PRÁTICA-COM-99%-DE-POSSIBILIDADE-DE-DAR-CERTO, de ignotas qualidades.  Existe, já, conclusivo, tal estudo?

 

  • A CAIXA ONDE VEM ACONDICIONADO UM MICRO NOVO, PRODUZ DUAS CAIXAS DE LIXO

E daí?????  Não acontece o mesmo com seu aparelho de som novo (gera três caixas de lixo, se contarmos as caixas de som), seus sapatos novos, seu bambolê novo?

 

  • QUALQUER SISTEMA QUE SEJA DESENVOLVIDO PARA SER TÃO SIMPLES QUE ATÉ UM IDIOTA USARIA, NENHUM IDIOTA VAI QUERER USAR

Como sabe que nenhum idiota vai querer usar?  Pode ser que exista algum, sim, que queira usar, ora!  A menos que na segunda ocorrência do termo "idiota", o(s) autor(es) queiram se referir aos "usuários comuns", classe em que não se enquadra(m), evidentemente.  Outra hipótese é ter-se cometido um erro de redação: "nem um idiota vai querer usar".  Mesmo assim, dependerá muito dos idiotas, e quem sabe o que se passa na cabeça de um idiota?  Vide eleições presidenciais, por aí...


O valor da Universidade em função do valor da formação superior
dmtcllr
 
Um tema recorrente em observações de pessoas que sabem para onde vai o mundo, do jeito que as coisas estão, é o valor da formação em nível superior. Para uns, é importante que cada um tenha a oportunidade de vivenciar a experiência da Universidade, onde se situaria um foco excelente da cultura humana... Caberia discutir um tal otimismo. Porém, me parece mais necessário enfrentar a opinião oposta: a de que essa experiência estaria se tornando cada vez mais inócua, quando não deletéria.  Argumentam que um curso superior, hoje, nem dá condições a um egresso de obter um emprego (seja pela fragilidade dessa formação, seja porque os empregos estão desaparecendo, numa reacomodação estrutural do capitalismo),  nem o capacita para ser “empreendedor”, para criar e gerir seu próprio negócio, na selva neossocialdarwinista. Nessa linha, como ilustração da falência da Universidade em seus objetivos citam o número de bacharéis em Direito que não advogam; dos professores de Letras que não ensinam nenhuma língua; dos oceanólogos que não trabalham profissionalmente com o oceano etc., apresentando, então, para o devido impacto, os detalhes anedóticos sobre o último motorista de táxi com quem se encontraram que era formado em X-logia. Em conclusão, a Universidade dita humboldtiana, da formação básica propriamente universalista, ainda que mais ou menos concentrada para uma carreira ou família de carreiras, deveria dar lugar a uma universidade dita técnica, focada na construção e atribuição de competências “concretas”, valiosas para o “mercado” profissional, ergo, focada na empregabilidade ou na sustentabilidade de um empreendimento pessoal ou empresarial. Ao fim e ao cabo,  na constatação do comentarista de que o taxista era formado em X-logia e não X-logava, percebe-se, não uma preocupação com o destino do rapaz, mas, isto sim, um lamento quanto ao destino dado aos vultosos recursos gastos, em vão, segundo sua ótica, na concessão a ele de uma oportunidade. “Oh! My money!”

Acontece que nesse quadro axiológico, o valor da formação em nível superior se pauta pelo ganho individual, sobre o quanto o indivíduo se vale da Universidade para alcançar uma certa ascensão social, para seu benefício próprio, enfim, desconsiderando-se possíveis e reais efeitos quanto ao benefício coletivo a ser acumulado a partir da melhoria geral do nível cognitivo e cultural de toda a população.  Pior: dá valor ao ganho que o terceiro beneficiário (provavelmente um capitalista investidor) conseguirá extrair da competência do egresso, mais do que o egresso terá para si próprio. Isto é: do quanto uma classe dominante espera obter do sistema educacional na forma de "qualificação da mão-de-obra".  Dessa forma, o argumento de que a Universidade não cumpre seu papel na medida mesma em que não dá empregabilidade imediata nem imediato sucesso na livre iniciativa, deriva de uma projeção rasteira do pensamento econômico, na qual o único "valor agregado" da Educação é o retorno do "investimento" aquilatado em termos de salário ou de pro-labore  final, ou de lucro, mesmo, dado aos patrões que, afinal, sustentam esta Nação.
 
No Brasil, mesmo, já existem diversos níveis de educação (superior, como os cursos de formação de tecnólogos, ou pós-médios) voltados para o “mercado”, opções para quem não queira (ou não possa) seguir uma carreira "tradicional". Como professor, deparo-me, no entanto, com egressos desses cursos que buscam a Universidade. Mal ou bem, o que os motiva não é apenas a falta na parede do diploma de curso pleno, mas, também, a percepção de uma formação inconclusa, muito baseada nas receitas de procedimentos, na mera absorção de "know how". Ora, nem todos se contentam com isso. Mesmo sem se dar conta, as pessoas querem se formar em "know why". No entanto, mesmo para aqueles que buscam formalizar uma competência adquirida empiricamente (o que, muitas vezes, não é mais do que lhes dão tais cursos), revela-se difícil acompanhar os estudos universitários, pela falta de base cultural, científica e até lingüística, no que não diferem dos estudantes que vêm do ensino médio. Isto quer dizer que esses cursos "aligeirados" não conseguem "formar" as pessoas, dão-lhes apenas um paliativo, um grau de empregabilidade imediata, conforme a sanha momentânea do "mercado" de trabalho. Assim que desapareça a demanda específica, esses "profissionais" vão se encontrar perdidos. Para eles mesmos e para a sociedade.
 
Aí vem a segunda parte. Quem é que pode se adaptar a essas alterações conjunturais? Não é aquele que teve um belo treinamento. É aquele que teve alguma formação com valores adicionais em termos não de empregabilidade imediata, mas de uma adaptabilidade derivada da compreensão dos sistemas profissionais, sociais, técnicos e tecnológicos que o cercam. Isto só é conseguido pelo envolvimento acadêmico com a pesquisa, pelo enfrentamento das exigências maiores de um curso estruturado, e até mesmo pela vivência mais prolongada no campus (quatro ou cinco anos em vez de três ou dois) com diversos grupos. É utópico ver isto implementado de forma integral, como seria o ideal? Sim, mas, na prática, verifico ser melhor pouco em direção a isto que nada, como é a filosofia da "universidade" técnica.
 
E esta adaptabilidade dada pelo ensino superior em qualquer área é que permite a um matemático atuar como projetista de software, ou um professor de inglês como secretário executivo, ou uma secretária executiva como publicitária, ou um advogado como escritor de best-sellers, ou um químico como biólogo, ou um informata como "designer" industrial, ou um engenheiro como professor de informática, um biblioteconomista como museólogo, sem falar em transições mais radicais como físicos em músicos. Lembra-me a observação repetida de que "já há arquitetos demais, todos desempregados". Ora, um curso como Arquitetura (só um exemplo) dá tantas, tão múltiplas e tão vastas oportunidades de inserção cultural que um arquiteto pode se engajar numa gama enorme de trabalhos e projetos.
 
Logo, esta diversificação de atividades que os titulados demonstram não é o fracasso do ensino do superior. É o seu sucesso. É a prova de que NÃO foi em vão o tempo de formação despendido. Esta identidade de curso e profissão é uma adequação econômica, de relação custo-benefício, como vista pelos investidores (seja a sociedade, seja o próprio estudante). Mas é uma visão tosca. Formar arquitetos e esperar que só projetem edificações e desenvolvam projetos urbanísticos e de paisagismo, é que seria um desperdício.  Ou seja:  ao final, mesmo para os interesses de quem defende a lucratividade pura  e simples de todo "empreendimento" educacional, a diversidade de formação e a imponderabilidade da vivência universitária (em vez do foco técnico-behaviouralista) acabam por instrumentar de modo proveitoso os "melhores" para a vida em sociedade em todas as suas dimensões, inclusive, e não só, econômica e profissional.
 
Numa visão mais radical, que é a minha, sim, a formação completa em nível superior deve propiciar a experiência do aprendizado, mais do que a qualificação técnica. E nesse sentido, é direito de todos. Não só de quem vá exercer exatamente a profissão associada com um certo curso, com demanda identificada. 
 
A formação "profissional" na Universidade é, até certo ponto, ainda, um pretexto para manter a formação paralela, esta, sim, mais importante, a qual, se fôssemos um pouco adiante, veríamos ser cada vez mais execrada justamente pelos gerentes do mundo, que não são exatamente aqueles que querem o bem da juventude...
 
No momento em que os operários da "Nova" Era forem todos conformados nas máquinas de fabricar autômatos humanos de alta especificidade, via "cursos" aligeirados ou treinamentos de alta performance cognitiva e assim por diante, finalmente a Universidade simplesmente não terá mais razão de existir. Pelo menos, não mais sustentará a tão sagrada razão custo-benefício.  Nessa matriz, não terá mais valor nenhum.

Se estamos sozinhos no Universo...
dmtcllr

 

É uma pergunta que o pessoal vive fazendo, acompanhada de alguns raciocínios associados, como: o Universo é muito grande, logo, "deve" haver outros seres inteligentes, ou seria muito "desperdício" de espaço sermos os únicos a usufruir dele. Instado a sintetizar o que penso sobre o assunto, aproveito para compartilhar com Vocês.

 

Primeiro, não tem sentido perguntar se estamos "sozinhos". O Universo é, sempre esteve aí, sempre vai estar, em seus ciclos dinâmicos de construção e reconstrução. De modo que nós apenas estamos, pois o Universo não se cientifica de nossa existência, apenas agregou condições para que surgíssemos dentro dele, num jogo de "acidentalidades". Conseqüentemente, não tem sentido falar em "desperdício" de espaço. Que enorme presunção é esta, de que nós (incluindo todos os bichos e plantas) preenchemos algum espaço? O espaço é apenas espaço, a matéria ocupa uma parcela infinitesimal do espaço, de modo que ele já está bem "desperdiçado". Se tomarmos apenas o plano orbital do nosso sistema solar, nem 0,1% do espaço é ocupado por algum tipo de matéria. Pior: as massas galácticas estão SE AFASTANDO umas das outras, em certas regiões até mesmo em velocidades próximas à da luz! Bota rarefação nisto!

 

E nós... ora, nós, apenas um fenômeno cósmico dentre tantos outros, que só consegue ser interessante para nós mesmos.

 

Segundo, para haver observação, é preciso interação, e não há nenhuma condição de o que quer que seja nos observar, ou nos fazer "companhia", no Universo, pois, ou é vazio de "vida" (como a entendemos) ou tem tipos de vida completamente incompatíveis e não passíveis de interação conosco. Se isto se traduz em "solidão", bem, estamos sós. Feliz ou infelizmente. Pode ser triste, mas pode ser ótimo também. Sabe lá o que poderia aparecer para nos azucrinar...

 

Terceiro, a história de que há tantas estrelas, dentre elas tantas com planetas, dentre estes, tantos similares à Terra etc., chegando-se a um número de planetas possivelmente habitados, é só isso mesmo: possibilidade e probabilidade.

 

Quarto, este mesmo raciocínio pode ser aplicado em qualquer escala: qual a chance de haver uma galáxia habitada, dentre os milhões delas avistados? Maior do que haver um só planeta. Mas, e daí? Mesmo, invertendo a tese, que haja "alguém" por aí, as distâncias astronômicas inviabilizam contatos diretos. Como já ouvi alguém dizer: se não estamos sós, certamente estamos a sós. Do ponto de vista informacional, é como se estivéssemos sós.

 

Saudações, irmão na solidão!


O que é Pompa T'Ácqua
dmtcllr

Pompa T'Ácqua é basicamente um blogue para eu fazer blague. Para quem sabe o que é blogue mas não sabe o que é blague, que vá ao dicionário, que é um bom exercício. (Dicionário na Grande Rede é o que não falta. Esse da referência acima é bom nas sugestões de tradução que faz, por exemplo. Mas o Google dá 725.000 referências para "dicionário on line"). Pompa T'Ácqua é um blogue para eu aparecer. Como todo blogue. Como todo professor, sofro de um certo exibicionismo. Agora, em escala planetária. Pompa T'Ácqua é um blogue para eu comunicar "vastas emoções e pensamentos imperfeitos", que por vezes me ocorrem,incluindo epigramas inócuos, poemas presunçosos, e outras obras, de diversa categoria, como ficsaios [cunhagem de Gabriel de Britto Velho, escritor gaúcho de rara inspiração (na minha opinião), que não tem çaite nem referências importantes na Internet], arrazoados, retrucagens, diatribes, indignações, elucubrações, relatórios e projetos, tudo coisas que eu acho de grande valia para a Humanidade, mas que ficam inutilizadas por carecerem de massiva divulgação. Pompa T'Ácqua também é para não comunicar nada importante. Como diz o Bruno Ávila, do çaite "Webinsider":  "O GLOBO ficou bom.  Mas quem lê tanta notícia?" (d'aprés Tabajara Lucas). Seja como for, mesmo luminares ainda que obscuros como Lakan disseram (ou pretenderam dizer) muita bobagem na vida... Por que eu não teria tal direito, ainda mais em tempos tão hiperreferenciais? Pompa T'Ácqua é um blogue só para poucos. Mais especificamente, somente para aqueles que eu possa ter um mínimo de certeza (~ 51%) de que não vão me denunciar. Aliás, por isso mesmo, vou dar o endereço diretamente ao Reitor. Pompa T'ácqua é um alemón tissendtu: "ói, que fem um pompa tácua, fomo lóco pra tendtro, curissadta!". Só que o alemón non é de Pelotas nem de Canguçu. É de Picada Hartz (localidade próxima de Ararica), e escrreve en alemón misturratdo con talián.


?

Log in